02/10/2022

O clube do livro secreto




Sentadas na cabine de um café, numa terrinha perto de casa, percebemos que todas temos algo que não nos pertence. Chegamos de tarde, com o sol bem alto e acalentador. A conversa pela qual todas esperávamos há muito para pôr em dia começou a fluir e, entre atropelos de tanta coisa que queríamos contar e partilhar, uma delas lembrou-se que tinha o meu livro. Talvez já não se lembrasse, mas há três anos que também eu lhe tinha sequestrado "O ano da Morte de Ricardo Reis", e que, com o mesmo acaso característico da vida, o tinha começado a ler há um mês. Também eu tinha um livro que não me pertencia, mas que lhes pertencia. A que faltava também tinha um livro que era meu, que há muito já tinha perdido o paradeiro, sem nenhuma mágoa ou ira. Os livros são para partilhar, para oferecer sem v de volta, para pedir emprestados mesmo sendo meus.

Confio que os meus livros estão melhores nas mãos de quem os leia e os descubra, passem os anos que passarem. E sem contar, as mesmas amizades de sempre mantém um clube do livro secreto, de que nem elas sabem a existência.

Todas mudamos muito desde que os livros saíram das nossas mãos, mas, quando retornarem, vão vir das mesmas pessoas a quem foram emprestados. E que boa coincidência foi descobrir esta complô do destino numa cabine de um café em casa, o sítio onde crescemos juntas.

Quando saímos já era de noite e as folhas caíam das árvores.   

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